Projeto EMPREENDER COLABORAR TRANSFORMAR

Existe um movimento crescente de pessoas que se dedica à resolução de problemas da sociedade através de iniciativas inovadoras, sustentáveis e solidárias. Participar deste movimento é a proposta do Projeto “empreender COLABORAR TRANSFORMAR”. Incentivar os alunos da Escola Secundária de Miraflores a criar mais e melhor valor para a sociedade é o grande objetivo deste projeto.

Para atingir este objetivo inspiramo-nos nos inúmeros exemplos de empreendedorismo, nomeadamente o social, que nos entusiasmam e fazem acreditar num rumo verdadeiramente gratificante para o mundo em que vivemos.

Alda Coutinho

Teresa Ferreira

Um mundo melhor começa na imaginação


imagem da net

“O mundo em que vivemos está a mudar cada vez mais depressa. E isto é particularmente verdade nos setores do desenvolvimento económico e tecnológico.
(…)
Ao atual ritmo de mudança, é crucial que nós, cidadãos individuais, tenhamos uma ideia clara do rumo que queremos dar ao mundo. Se esperamos encontrar e permanecer no caminho certo, é necessário que cheguemos a um acordo sobre as características do mundo que queremos construir. E temos de pensar com ambição, com a maior ambição que pudermos imaginar – caso contrário, desperdiçaremos esta oportunidade única que o mundo nos oferece. Imaginemos os sonhos mais fantásticos e corramos atrás deles.
Eis a lista perfeita do mundo de sonho que eu gostaria que se realizasse até 2050. Estes são os meus sonhos e espero que muitos deles coincidam com os vossos. Tenho a certeza que gostaria tanto de alguns sonhos da vossa lista que os juntaria também à minha. Aqui está a minha lista:

·     -   Não haverá mais pessoas pobres, mendigos, sem-abrigo, crianças de rua em nenhum lugar do mundo. Cada país terá o seu museu da pobreza. O museu da pobreza global ficará localizado no último país a erradicar a pobreza.

·      -  Não existirão passaportes e vistos em nenhuma parte do mundo. Todos os cidadãos terão o mesmo estatuto e serão realmente globais.

·       - Não haverá guerra, nem preparação para a guerra. Não existirão armas nucleares, nem quaisquer outras armas de destruição maciça.

·        -Todas as doenças serão curáveis, do cancro à sida, em todo o mundo. A doença será um fenómeno raro sujeito a tratamento imediato e eficaz.

·       - Estará implementado um sistema de ensino global, acessível a todos. Todas as crianças serão ensinadas a aprender e a crescer com alegria. Todas as crianças serão educadas para se transformarem em adultos altruístas e com compaixão, acreditando que o desenvolvimento dos outros deve ser consistente com o seu próprio desenvolvimento.

·        -O sistema económico global encorajará as pessoas, as empresas e as instituições a partilharem a prosperidade e a participarem ativamente na criação da prosperidade dos outros, transformando a desigualdade de rendimento numa questão irrelevante.

·        -Os negócios sociais constituirão uma fatia substancial do mundo empresarial.

·        -Haverá apenas uma moeda única e global. Desaparecerão as moedas e as notas.

·       -Haverá tecnologia disponível para detetar e monotorizar, facilmente, contas e transações bancárias secretas de políticos, funcionários públicos, empresários, agentes de informação, organizações criminosas e grupos terroristas.

·        -Todas as pessoas do mundo terão acesso a todo o tipo de serviços sofisticados.

·        -Todas as pessoas comprometer-se-ão a manter um estilo de vida sustentável com base em tecnologias apropriadas. O sol, a água e o vento serão as principais fontes de energia.
(…)

Todos estes objetivos são alcançáveis se trabalharmos para eles. À medida que avançamos rumo ao futuro, acredito que será cada vez mais fácil aproximar-nos dos nossos sonhos. A parte difícil é abrir as nossas mentalidades. Quanto maior for o número de pessoas que concordar com estas metas, mais depressa será possível atingi-las. Tendemos a estar tão ocupados com o nosso trabalho do dia-a-dia e com os nossos tempos livres, que nos esquecemos de olhar pela janela das nossas vidas para confirmar em que etapa da viagem nos encontramos, ou aproveitarmos para refletir sobre o destino a que desejamos verdadeiramente chegar. No momento em que soubermos para onde queremos ir, chegar lá será muito mais fácil.
Cada um de nós devia elaborar uma lista de sonhos para refletirmos em que tipo de mundo queremos viver quando nos reformarmos. Feita a lista devemos pendura-la na parede para que possamos confirmar, todos os dias, se estamos mais perto do destino.
Em seguida, devíamos insistir com os condutores das nossas sociedades – os líderes políticas, os investigadores académicos – para nos levarem na direção que escolhemos. Lembrem-se de que só temos uma vida, que temos de a viver à nossa maneira e que só a nós cabe o nosso destino.
Este processo de imaginação de um mundo novo é um dos principais elementos em falta no atual sistema de ensino. Preparamos os nossos estudantes para o trabalho e para a carreira profissional, mas não os ensinamos a pensar enquanto indivíduos sobre o tipo de mundo que eles gostariam de construir. Devia ser obrigatório incluir uma disciplina dedicada a este exercício em todas as escolas e em todas as universidades. A cada estudante seria pedido que elaborasse uma lista de desejos e que a justificasse perante a classe. Os colegas de turma poderiam concordar com as ideias, sugerir alternativas ou pedir mais explicações. Todos passariam a debater qual a melhor forma de construir aquele mundo de sonho que tinham imaginado, como o poderiam tornar realidade, que obstáculos existiriam e que parcerias, organizações, conceitos, conjunturas e planos de ação poderiam ser criados para atingir o objetivo.”

Muhammad Yunus  Criar um mundo sem pobreza


Por uma economia solidária



Estamos a dizer que é possível outra economia e que é absolutamente necessária para o Séc. XXI que seja compatível com a vida. Uma economia solidária com as pessoas e solidária com a vida no planeta, com a natureza, com a diversidade cultural, com a diversidade do conhecimento não apenas o académico, mas também o conhecimento que advém do terreno”.
                                                                                              Rogério Roque Amaro

Muhammad Yunus

 
    

Há cerca de 30 anos atrás, recém diplomado nos Estados Unidos, M. Yunus voltou para o Bangladesh, sua terra natal. Quando saia da Universidade onde dava aulas de Economia sentia que todas as teorias económicas que ensinava, eram simplesmente “histórias de encantar”: não tinham qualquer significado na situação de miséria das pessoas que o rodeavam. Com o desejo de fazer algo “para prolongar a vida ou adiar a morte, nem que fosse de uma só pessoa” começou a observar a vida dos habitantes da aldeia, situada junto ao campus universitário.
            O encontro com uma artesã de bancos de bambu vai mudar o rumo da sua vida. Após um longa conversa descobre que os rendimentos da artesã, pelos seus bonitos bancos , não excediam uns escassos cêntimos de dólar por dia. Devido ao facto de não ter dinheiro para comprar o bambu, que custava 20 cêntimos, esta mulher tinha de pedi-lo emprestado a um negociante que impunha, como condição, que o produto lhe fosse vendido em exclusivo, ao preço que ele estipulasse.
            Muhammmad Yunus pergunta-se se não há nada que se possa fazer para evitar o sofrimento de pessoas por apenas 20 cêntimos. Com os seus alunos percorre a aldeia e verifica que existem 42 pessoas nas mesmas condições. Sentiu-se envergonhado de fazer parte de uma sociedade que “não podia facultar uns meros 27 dólares a quarenta e dois esforçados seres humanos com tão elevada aptidão profissional”.
            Depois de ter dado do seu bolso os 27 dólares a estas pessoas, dizendo-lhes que se tratava de um empréstimo e que elas podiam reembolsá-lo quando pudessem, foi à agência bancária do campus universitário, sugerir que fossem concedidos empréstimos às pessoas necessitadas da aldeia. A resposta que tem é: “O senhor está louco! Não é possível! Como é que podemos emprestar dinheiro aos pobres? Essa gente não merece crédito.”
            O pagamento na totalidade do empréstimo, que concedera aos aldeãos, deu-lhe a prova que achava suficiente para que fosse concedido crédito àqueles que mais necessitavam, mas não. Disseram-lhe que se tratava de um caso isolado e que o queriam apenas enganar.
            Após uma luta em que sempre se deparou com a intransigência do Banco, tomou uma decisão: Criar um banco diferente. Levou dois anos a convencer o governo, abrindo a 2 de Outubro de 1983 o Grameen Bank.
            Yunus encontrou a sua voz e inspirou outros a encontrar a deles: o movimento do micro crédito está actualmente a estender-se por todo o mundo.

Os nós cegos da economia


  •        " Imagem ultra simplificada da natureza humana, partindo do princípio de que as pessoas são unicamente motivadas pelo desejo de maximizar o lucro.
  •       Princípio de que a solução da pobreza está na criação de empregos para todos – que a única forma de ajudar os pobres é proporcionar-lhes postos de trabalho. O único tipo de trabalho que a maioria dos livros de economia reconhece é o trabalho dependente.
  •       Não reconhecer a família como uma unidade de produção e o trabalho independente como uma forma de ganhar a vida. As pessoas deviam ter a opção de poder escolher entre o trabalho dependente e independente.
  •       Suposição de que o empreendedorismo é uma qualidade rara. Pelo contrário, a capacidade empreendedora é praticamente universal. A sociedade nunca deu às pessoas pobres uma base adequada para crescerem. Quando os pobres forem autorizados a libertarem a sua energia e criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente."                                               Muhammad Yunus

Van Gogh


Para Muhammmad Yunus a principal tarefa de um programa de desenvolvimento é tentar despertar a criatividade que existe em cada ser humano. Na sua base  está a criação de um ambiente favorável que permita a cada ser humano explorar o seu potencial criativo.


No livro "Criar um mundo sem pobreza" M. Yunus fala-nos do talento nato de todos os seres humanos – o talento para sobreviver. Diz-nos que concentrou os seus esforços no que pudesse  possibilitar a concretização do potencial dos mais pobres. "Dar aos pobres acesso ao crédito permite-lhes pôr imediatamente em prática os talentos de que já dispõem – tecer, descascar arroz, criar gado e guiar um riquexó" (…).


(…) Decisores públicos, consultores internacionais e muitas ONG partem, normalmente, do princípio oposto – que as pessoas são pobres porque não têm aptidões. Baseados neste conceito, os seus esforços antipobreza começam por ser construídos em volta de elaborados programas de formação. Eles optam pela formação porque esse é o caminho que indicam as avaliações viciadas que tomam por princípio. Mas se vivermos tempo suficiente com os pobres, descobrimos que a pobreza se deve à incapacidade de retenção dos resultados do seu trabalho. Eles não têm qualquer controlo sobre o capital. Os pobres trabalham para benefício de outros que controlam o capital.

E porque é que isto acontece? Porque os pobres não herdam qualquer capital e porque ninguém, no sistema convencional, lhes dá acesso a capital ou a crédito (…).

(…) E quanto à formação profissional? A formação, per se, não tem nada de mal. Pode ser extremamente importante para ajudar pessoas a ultrapassar dificuldades económicas. Mas a formação pode ser dada apenas a um número limitado de pessoas. Para responder às necessidades de uma vasta massa de pobres, a melhor estratégia é deixar que as suas aptidões naturais se desenvolvam, antes de começar a ensinar-lhes aptidões novas. Conceder crédito aos pobres e deixá-los usufruir dos frutos do seu trabalho – muitas vezes, pela primeira vez na vida deles – ajuda a criar uma situação em que eles próprios sentirão necessidade de formação, começando a procurá-la e dispondo-se até a pagar por ela (embora, em grande parte das vezes, não mais do que a um preço simbólico). Nestas condições, a formação pode ser realmente importante e eficaz.”

   
        Estas palavras levam-nos a reflectir na nossa cegueira perante a energia e criatividade de todos os seres humanos e nos muros que são impostos à metade inferior da população mundial.